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Pulsações Tricordianas
 


O DIA EM QUE DERRUBARAM

 A ESTÁTUA DO PELÉ

Carlos Edyl

 

Já imagino as manchetes no dia seguinte da retirada daquele monumento às margens da Fernão Dias: “CIDADE NATAL DERRUBA ESTÁTUA DE PELÉ” A notícia vai correr o mundo. Televisão, NET, jornais. Vai ser destaque até no EPTV. E acompanhada de uma imagem de grande impacto. O Pelé descabeçado, ou ‘despernado’, sendo demolido por uma retro-escavadeira dirigida por um argentino, ou varginhense, ensandecido de inveja bairrista.

Deixo bem claro que não é esse meu desejo nem vontade, mas também não se trata de mera ficção futurística desconectada com a realidade, não. Enquanto uns gostam, outros não, e uma maioria não está nem aí para aquela estátua do Pelé, ninguém sabe se já foi concluída, se ainda em construção ou se já sentenciada à demolição. Essa falta de informação é desrespeitosa com a opinião pública, e mais desrespeitosa ainda com aquele a quem se queria homenagear: O Atleta do Século XX, o tricordiano Pelé.

Dizem (sujeito oculto devido ao silêncio oficial) que o DENIT embargou a obra. E além de não permitir nenhum outro melhoramento no local, ainda exige sua demolição. A razão seria que a estátua se localiza próxima demais ao trevo de acesso sul a Três Corações e à cidade de Varginha, o que desviaria a atenção dos motoristas aumentando o risco de acidentes. Hummm... Tem lógica. O que não é compreensível, nem perdoável, é porque o tal DENIT não interferiu no inicio da construção, que durou meses, evitando gasto do dinheiro público para construir e mais dinheiro ainda para desconstruir. Sem falar dessa situação constrangedora perfeitamente evitável. Cabe ao diretor, superintendente, chefe, seja lá a denominação que tenha o responsável do DENIT para o sul de minas, que este apareça para esclarecer. Aguardar que o mesmo venha colaborar na solução é esperar demais de um funcionário certamente bem apadrinhado politicamente e que se estivesse na iniciativa privada teria dado motivos para ser sumariamente demitido, por justa causa. E com um belo pontapé dos conterrâneos do Rei do Futebol.

Alegar que a estátua do bandeirante Fernão Dias na entrada da cidade de Pouso Alegre também se localiza em trevo de grande movimento não basta para desqualificar as eventuais razões técnicas para a impermanência da estátua do Pelé. Ela foi erguida há décadas, antes da duplicação da rodovia, e certamente observando uma outra e mais tolerante legislação.

Mas, prevalecendo o verossímil argumento técnico, então fica inviabilizada a construção de outro monumento no trevo de acesso norte a Três Corações, próximo ao tão (mal) falado prédio dos correios? Ora, a proibição permanece se faltar planejamento, se faltar capacidade para ler e compreender as leis e suas aplicações. Por se tratar de uma área muito mais ampla, com grande afastamento das margens da rodovia, é perfeitamente possível uma estátua (monumento, museu ou similares) do Pelé sem ameaçar a segurança do tráfego. Creio que com boa vontade, competência e inteligência, possa se chegar a uma solução viável. E fazendo questão de reafirmar que esse texto não é ficção, sei que essas características não são raras junto à população tricordiana, servidores públicos e profissionais do setor da cultura e turismo.

Eu não faço idéia de qual seria essa solução e desconfio das intenções de qualquer pessoa que venha com resposta fácil e pronta. Até porque a encrenca é maior, muito maior do que os 18 metros de concreto armado e gosto duvidoso daquela estátua. É uma questão de simbologia. Se é objetivo de Três Corações diversificar sua economia explorando a imagem do Pelé, logicamente tudo que envolve esta imagem deve ser tratada com cuidado e responsabilidade. Se a inauguração daquela estátua atrairia atenção do mundo inteiro, a desconstrução da mesma tem mais força jornalística ainda. Daí a gravidade da situação. Ignorar aquela estátua é muito mais difícil do que ver ETs em São Thomé ou em Varginha. Tampouco é questão de discutir se tem mérito ou não. Parodiando Bill Clinton para Bush pai, “É a Economia, estúpido’”. No nosso caso, “É a Imagem, estúpido”. A palavra ‘estúpido’ é bem mais forte e ofensiva em português que em inglês, (imagino eu, semi-glota que sou), mas ainda assim vale a ênfase. E enquanto ninguém tomar iniciativa de abordar o assunto de forma oficial, os comentários rolam soltos. Conversando com o Valério Neder, com o Nando Ortiz, com o Bogarim, no bar do Gajo ou na Calabresa, não se deixa o assunto morrer. Quanto mais se conversa, quanto maior o debate, mais próximo de uma solução inteligente, acima de divergências das correntes políticas que se alternam no poder.

(...)

- Ou não! Diria Caetano Veloso, que não tem nada a ver com o assunto, mas como muitos outros, palpitaria mesmo assim.

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Carlos Edyl Santiago Filho, jornalista, aquariano, joga futebol quase tão bem quanto a estátua do Pelé. Nunca jogou no Santos, nem no Cosmos, nem na Seleção Brasileira, mas ainda é invencível em futebol de botão e pebolim.



Escrito por Carlos Edyl às 20h18
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