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DENTRO DO BOLSO

 

DENTRO DO BOLSO

Carlos Edyl

   Acordei de uma noite estranha, numa hora incerta da manhã que chovia. Pude ver pela janela do quarto onde dormi. Meus olhos não reconheciam as paredes cálidas que me abrigaram enquanto eu nem sei dos perigos que corri ou não. Estava sozinho, dentro de uma roupa amarrotada e os sapatos espalhados pelo chão. A porta fechada garantia o silêncio que quebrei com meu despertar. De forma que ninguém lá fora disso saberia, nem nunca souberam. Investiguei os móveis do cômodo buscando sinais de outros habitantes. Nada reconhecível, a não ser o jornal de ontem com notícias de anteontem.

   Na camisa, o bolso estufava conteúdos. Esvaziei ávido sobre a cama, ansiando refazer a noite através de seus vestígios acumulados dentro do tecido. Um maço de cigarros pela metade. Uma caixa amarela de chicletes. Algumas moedas, também de valor incerto. Uma tampa de caneta. Papéis. Vários papéis amassados. Desdobrei um por um. Um fragmento de poema que nem sei se foi concluído. Um número de telefone anotado displicentemente. Um recibo de restaurante. Um recibo de bar. Outro recibo de bar. Um ticket de metrô. Muitos escritos indecifráveis. Um cartão de visita.

   Uma chave.

   Tateei na calça e apalpei o chaveiro do dia-a-dia. Aquela chave era novidade.

   Mas afinal,o que essa chave abriria? Trancaria o quê?

   O que eu me deliciaria abrindo trancas com aquela inusitada chave? Caminhos? Encantos? Encontros? Pessoas? Lugares? Saídas?

   Ou de que perigos aquela chave me protegia? Ameaças? Invasões? Tempestades? Naufrágios? Entradas a ambientes hostis?

   Seria tudo depois daquela porta?

   A chave me protegeria ou me possibilitaria?

   Tamanho poder contido naquela mísera chave, talhada em metal barato, cheia de ranhuras que a tornava única. Percebi que a fechadura era compatível com a chave. Me aproximei aguçando os ouvidos sem distinguir  os sons que do outro lado me aguardavam.

   Antes de usar a chave, coloquei a mão na maçaneta. Com receio de perder o que me era desconhecido e mergulhar numa imensidão interminável de desfechos previsíveis e com términos conhecidos. A porta abriu.

   Crianças corriam prá lá e prá cá. Minha irmã penteava seus cabelos. Os pais avisaram que o almoço estava na mesa.

   Fingi que os conhecia, assim como finjo que me conheço. E sorrateiramente guardei aquela chave em um lugar secreto, para uma ocasião sagrada.

   Decerto, até lá,eu aprenderia a saber.

 

 



Escrito por Carlos Edyl às 23h52
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