Que Haja
Carlos Edyl Santiago Filho
Que haja
Um deus
Que me invada
Como toda gota de álcool
Saboreada,
Destilada
Murmurada
Como uma prece sem pressa
Dissimulada
Como se fosse confissão
Que me percorra
Como toda gota de sangue
Que perco em artérias urbanas
Onde o vazio se expande
Sem ninguém que socorra.
Que haja!
Que aja!
Já!
Escrito por Carlos Edyl às 23h00
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ESPELHO QUEBRADO
Carlos Edyl Santiago Filho
Sete anos!
Sete anos de Azar!!!
Seria sua pena por quebrar o espelho. De nada adiantaria alegar ter sido acaso, acidente. Todo mundo sabia que o espelho havia sido quebrado por refletir a realidade como não se queria. Uma verdade que não se admitia.
E agora sete de azar era o que o esperava. Sentença implacável do destino. Olhou no calendário o que tanto perderia: feriados, verões, meses, semanas, dias, instantes... Seriam todos agora, com azar, piores do que até então foram.
"Maldito Ditado Popular!", esbravejou ele enquanto se preparava para cumprir a penitência que lhe fora imposta. Mas nesse momento, como num surto de lucidez, reconheceu sua situação sobre outra ótica, numa instintiva reação de autodefesa que poderia soar até como apelação. Mas era sólida sua argumentação. Sua pena havia muito sendo cumprida, comprida. Nunca fora um sujeito de sorte, e sua consciência aguçada já lhe havia imposto muitas privações. Por ter gosto personalizado, não se sujeitava a comercial massificação. Por ser ético e resistir às mundanas seduções, há muito vinha cumprindo sua pena em posição solitária sem aceso a qualquer interlocução.
Diferente. Cumpriu a pena antes mesmo de haver cometido à infração. Não poderia ser condenado duas vezes pela mesma contravenção, crime.
Há tempos, insatisfeito com a lógica cartesiana da realidade, havia abolido, ignorado e contestado a realidade. Pagou o preço crescendo sozinho, longe de tudo e de todos que acham possível nessa realidade, crescer.
E depois de muitos, muito mais que sete anos, ele materializou sua aversão à realidade quebrando o espelho. Por ele ousar impossibilitar a totalidade ali refletida, não seria justo pagar de novo pelo crime que já pagou antes mesmo de haver cometido.
Estilhaçou, com prazer indescritível, a realidade que se apresentava no espelho. Em tantos fragmentos, se mostrou mais exata a realidade. Desmascarou a coesão improvável da verdade contida em um único plano.
A realidade única foi decomposta e se tornou plena através de cada fragmento. De cada estilhaço.
Múltiplas lâminas que cortam a coesão impossível e revelam, com perigo de ferir, a realidade com toda sua diversidade.
Ele já havia cumprido sua pena, pensava assim. E agora se sentia livre para multiplicar sua verdade estilhaçando a realidade que não lhe bastava.
E mais bonita a realidade dos fragmentos que se moldam em inexatas continuações, que a sólida e rasteira convicção de poder ver tamanhas diversidades sob a mesma ótica de resignação.
Se for azar, ele já está acostumado com o que chamam de falta de sorte.
Sua voz se misturou com a balbúrdia dos carrascos, dos condescendentes e dos alienados. Mas seu riso foi multiplicado e refletido pelos cacos do espelho que se espalharam por todo seu mundo....
Escrito por Carlos Edyl às 19h38
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Exageros
Carlos Edyl
A estrela caiu silente
Do céu da minha boca
Em relampejos de desejos
Pedidos implorados no seu ouvido
O continente de carne que é seu corpo
Se estremeceu em fúria
Denunciada a fertilidade do seu solo
Pela epiderme em arrepios
O instinto se fez oceânico
Em ondas, espumou irado
Línguas de sal devassando seu litoral
Até a calma das suas costas
E a mulher, intensa de intenções
Sugado o rubro leite do seu seio
Rendeu-se mãe, farta e feliz
O instante se eternizou sagrado
E o homem sangrou vazio
Idolatrando e ansiando
O altar dos seus quadris.
Escrito por Carlos Edyl às 18h07
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AMPLITUDE
Carlos Edyl
Na profundidade
clara de uma cratera
ou na sensibilidade
aguçada de uma cicatriz
O ser impõe sua expansão
cósmica necessidade
incontível sob a pele
frágil fronteira
permeável e transponível
por portas janelas e poros
pela imperfeita solidez dos tijolos
Membrana de flexíveis limites
não impede por tantos orifícios
atmosfera de éter e essências
elementos atraídos pela gravidade
do corpo em constante órbita
Constância errante
de lógica que a muitos explica
a vida como simples superfície
Rasteiro e mortífero plano...
Escrito por Carlos Edyl às 16h52
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O azul tomou conta do céu...
Tendo seus olhos como cúmplices, tomou conta de mim.
Amanheceu
Amanhã sim...
Escrito por Carlos Edyl às 16h49
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TARDE
Carlos Edyl
A tarde atravessou minha carne ansiosa em fazer noite em minh´alma.
Resisti aos argumentos do tempo, e só o que era dia
deixei entrar pelas janelas dos quartos onde dormi....
Escrito por Carlos Edyl às 16h33
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Certos Dias
Carlos Edyl
Sabe daqueles dias
Em que diante do espelho
Há um completo desconhecido
Ali refletido
E que acham ser tudo
Que realmente somos?
Desconfortável com o quê vemos
Mesmo assim imitamos os gestos
Alheios
repetindo a mesma rotina
Da lenta letalidade de viver
preocupados tão somente
com o quê do espelho se pode ver.
Sabe daqueles dias
Em que a gente acha
Que não se é
Tudo que se poderia?
Já pensou da possibilidade
De dias de riso fácil e farto
Distribuído e compartilhado
Dias em que nada dá errado
Independente de horário
De atraso, de espelho quebrado
O tempo resiste ao calendário
E as coisas só acontecem
No seu instante necessário
Os dias são precisos
E preciosos o tempo todo.
Escrito por Carlos Edyl às 19h53
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Eu que guardei a palavra mais doce no seu ouvido, como quem esconde o fruto mais saboroso para depois do almoço, não me compreendi quando a fome que eu tinha de ti passou...
Carlos Edyl
Escrito por Carlos Edyl às 19h45
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O Ano Novo Nosso de Cada Dia.
O ANO NOVO NOSSO DE TODO DIA
Carlos Edyl
Os esquimós possuem 52 palavras pra definir os diversos tipos de neve.
Por quê? Porque a eles a neve é de tamanha importância, que o idioma se rende a melhor traduzir todas variantes do que para nós é neve e só.
Se fosse o ser humano dotado de coerência cartesiana, teríamos muito mais que 50, trocentas outras palavras pra definir o que é amor, já que é indiscutível e inquestionável seu valor e importância, digamos, antropológica e social.
Agora, aqui entre nós, confesse: Quantas vezes você ouviu um eu Te Amo nesse ano de 2006?
E quantas vezes falou, sussurrou, murmurou, balbuciou?? Resmungou????
Claro que ninguém sabe, porque nada justifica tamanho apego a quantidade diante algo imensurável. Não importa a quantidade, importa sim saber, e saber que sabe, que sentiu. Mesmo que não verbalizado. Até porque, de demasiada utilização, a palavra amor perdeu sua espontânea intenção.
Ranzinza cada vez mais aprimorado, não me conformo em existir uma só palavra pra definir os tantos e tamanhos e intensos amores. Por mais diversa que seja sua dimensão, forma, conteúdo e duração. Cada amor é único , e merece um nome só seu. A mim, é leviano tratar tantas diversas e intensas sensações sempre pela mesma palavra amor. Como não banalizá-la? Como não recear utilizá-la?
Não estou incomodado com o sentimento, com a palavra amor, mas sim com a estreiteza do idioma, que se mostra tão rico em outras ocasiões, agora para tratar de sensação tão sublime.
Tal como os esquimós percebem nas sutilezas as diferenças de um tipo de neve para outro, e assim atribuem um nome próprio para cada tipo, também o amor possui mais ainda sutilezas tamanhas que cabe questionar o porquê de não ser também nominalmente diferenciado.
O Meu Amor que se diz do fundo da alma nos tenros 15 anos é igual ao eu Te Amo de idosos de cabelos embranquecidos de vida vivida? O amor maternal, paternal, fraternal, amigo, o primeiro, o amor a certa canção, a certas saudades, a essa cidade, de tão diferentes, pela lógica também mereciam denominações diferentes... Mas aqui vem a resposta pra esse inconformismo. Quem disse que o amor tem lógica... Se enquadrado, compreendido, limitado, definido, de certo já há um substantivo próprio pra defini-lo...Porque amor mesmo, prescinde, antes de tudo, de lógica, de coerência, de razão, e mesmo de consciência.
Ou se sente ou não. E pronto.
Querer explicá-lo é um esforço por demais sobre humano, que não merece o tempo despendido que melhor seria aproveitado se simplesmente sentido. Intimamente degustado, saboreado, compartilhado e usufruído.
Que em 2007 você fale, e ouça, Te Amo, infinitas vezes. De todas e quaisquer formas. Sempre que você precisar e também sempre inesperadamente... E se o idioma não consegue traduzir sua múltipla variação, que esse amor seja tão imenso e intenso que tudo nele seja explícito pela forma única de cada entonação.
Aliás, pra que esperar o ano novo? O reveillon? Comece agora seu próprio Ano Novo.
Perceba a estranha beleza de verbalizar essa frase: Eu Te Amo! Pratique. Fará bem a quem merecer ouvir, assim como bem maior faz a quem tem coragem de expressar o seu sentir.
Carlos Edyl Santiago Filho, jornalista, funcionário administrativo da Câmara Municipal de Três Corações, é um Homem do século passado.
Escrito por Carlos Edyl às 19h39
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